Zimbábue: Como a oração derrotou a ditadura mais longa do mundo

Quando iniciou a campanha #thisflag [esta bandeira], o pastor batista Evan Mawarire, 40 anos, não podia imaginar o alcance de suas palavras. Passando por problemas financeiros e família para sustentar, como a maior parte da população do Zimbábue, ele resolveu fazer um desabafo na internet. Enrolou a bandeira do país no pescoço e gravou um vídeo onde reclamava da corrupção que destruía seu país. Na igreja, passou a pedir que os cristãos se unissem em oração, mas também fossem para as ruas protestar.

Com a visível aceitação, começou a gravar outros vídeos. Em pouco tempo Mawarire se tornou uma espécie de “líder da resistência”. Por causa da influência dos vídeos do pastor, que inspiram milhares de pessoas, o próprio presidente passou a chamar seus opositores de “mawarires” em discursos na TV.

De fato, para vários analistas, Evan Mawarire se tornou o líder deste novo movimento cívico contra o governo do Zimbábue. Por iniciativa do pastor, e convocado pelas redes sociais, greves nacionais pararam o país em 2016.

Embora sempre falasse sobre a necessidade de oração e insistisse que seu objetivo não era político, Mawarire acabou sendo preso várias vezes nos últimos dois anos e proibido de falar contra o presidente. Condenado a 20 anos de cadeia por “subversão”, ele passou um total de 22 dias preso, mas recorreu e atualmente está livre. Ao total, ele enfrentou 5 prisões, 19 aparições no tribunal e o confisco de seu passaporte.

No início de 2017, o presidente Mugabe chegou a ameaçar a vida do pastor e de seus seguidores. Ele o acusa de ser um “falso profeta”, patrocinado por governos estrangeiros. Nenhuma outra igreja ou líder religioso fazia oposição direta ao regime corrupto do país até Mawarire iniciar o #thisflag.

Nos últimos dias, a resposta de suas orações parece ter chegado. Robert Mugabe era considerado o ditador mais longevo do mundo. Estava no poder desde 1980, ano em que a independência do Reino Unido foi reconhecida e o país passou oficialmente a ser chamado de Zimbábue. Foram 37 anos de uma ditadura marcada pela corrupção e pelo empobrecimento da nação, onde a maioria dos habitantes está desempregada.

Seu governo chegou ao fim hoje (19), quando foi destituído do cargo de presidente de seu próprio partido, o governista Zanu-PF. O partido deu ainda a Mugabe até o meio-dia desta segunda (20) para renunciar ao cargo de presidente ou enfrentar um impeachment.

Aos 93 anos, ele preparava terreno para que sua esposa Grace, 52, assumisse o controle da nação. O país que já foi uma das grandes potências petrolíferas da África, tem inflação galopante e não se mostrava favorável a continuação do sistema que arrasou sua economia. Porém, todas as manifestações de oposição vinham sendo reprimidas com violência, uma vez que Mugabe controlava o exército. Não por acaso, foi apelidado de “carniceiro”, pela forma implacável como sempre tratou os adversários.

Tudo mudou na semana passada, quando o vice-presidente Emmerson Mnangagwa, que tem estreitas ligações com os militares, colocou Mugabe e sua família em prisão domiciliar. Durante dias o presidente negociou sua saída do poder. O Zimbábue será governado interinamente por Mnangagwa. Ainda não há datas para a realização de eleições, mas promessa é que ocorram nos próximos meses.

Mas esse não foi somente mais um golpe militar, tão comum no continente africano. Nos últimos dias, os moradores do país voltaram a encher as ruas, pedindo o fim da ditadura sem medo de repressão. Milhões de cidadãos desfilaram com faixas, cartazes, bandeiras do país e uma das principais vozes na mídia nacional continua sendo a de Evan Mawarire.

Pela internet, o pastor convoca os cristãos a continuarem orando pelo país e iram para as ruas pedir a saída do presidente. Em meio aos protestos, a imagem de cristãos ajoelhando, em oração, com a bandeira em volta do pescoço tornou-se relativamente comum. Nas manifestações, o povo comemora.  “É como o Natal”, disse Fred Mubay, um cidadão que acredita que o sofrimento dos zimbabuanos está chegando ao fim.

“Posso dizer que este é o nosso segundo dia da independência, algo que esperamos por muito tempo”, comemora Nyikayaramba, 32 anos. “Nós sofremos, e eu louvo a Deus que isso finalmente aconteceu. É um ótimo momento para ser zimbabuano”.

Num acontecimento inédito, a Zimbabwe Broadcasting Corporation, emissora oficial do governo, decidiu transmitir ao vivo o comício improvisado que reuniu milhares na capital Harare nesta sábado (18). Um dos principais oradores foi o pastor Evan Mawarire, que segurava sua bandeira e dava graças a Deus pela intervenção. Na mídia ocidental, sua figura continua sendo apontada como a de um dos principais líderes no clamor nacional pela saída do presidente.

E tudo começou com uma oração.

 

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