Artigo “Apito de Ouro – Marco Tavares”

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Todas as pessoas possuem uma história. Muitas são contadas de forma a dar uma conotação heroica, outras de terror, outras a despertar o carinho e admiração.

As nossas, objetivam conhecer alguns personagens que ajudaram a construir um cenário que muitas vezes não são levados em conta, por não serem personagens que mexam com as emoções, que proporcionem choro ou mesmo, convulsões de alegria ou tristeza.

Aqui, os envolvidos tem que tratar e conviver com a razão. Construiremos aqui uma série como verdadeiro APITO DE OURO, onde contaremos histórias de árbitros de futebol, como forma de homenagear essas pessoas. E essas histórias deveriam começar assim…era uma vez…

Fazer parte do jogo – Por Marco Antonio Tavares

Não há nada mais empolgante que que os minutos que antecedem uma partida de futebol. O barulho do torcedor em um estádio cheio, com os apupos contumazes de uma pessoa que ama uma cor, um brasão, um nome, um símbolo, o seu time do coração.

Chega a ser irracional quando vemos pessoas de vários gêneros, cores, idades, crenças, se derrubando em gritos que muitas vezes se perdem ao vento.

Fico relembrando os dias anteriores. Não, anos anteriores, quando me preparava solitário no condicionamento físico, com frio, calor, chuva, em minutos inacabáveis, com dores, sede e uma enorme vontade de desistir.

Treinos que não acabavam nunca. Informações que o cérebro não vencia em receber, organizar e retroalimentar para as ações.

Futebol não é pra todos. Futebol não é para fracos. Quantos daqueles campinhos com traves de bambu, redes de sacos de cebola, bolas sem cor, com regras próprias, puderam ser vistos em uma transmissão ao vivo de televisão.

Quantos bate-papos após as peladas, quantos sonhos interrompidos por aquela voz tão conhecida: “Menino vem tomar banho, já está de noite”.

Não tive muitas oportunidades, nem sei se por ser pequeno, franzino, ou por já ter dentro de mim um sonho que ia além de jogar.

Por vezes sonhei em conhecer outros lugares, aprender a cultura de outros povos, ver gente diferente, entender idiomas diferentes. Mas para isso tinha que vencer os mais fortes, os mais velozes e muitos mais inteligentes.

Tinha a meu favor o fazer amigos com facilidade, vencer sim, não a qualquer custo e acima de tudo, ser equipe. Sempre acreditei ser mais fácil o grupo vencer do que eu solitário.

Desta maneira e com essas crenças, segui em minha carreira. Dedicação além do normal. Ser autossuficiente e autoimune as adversidades. Aceitar as derrotas com resignação, mas, buscar as vitórias. Isso fiz em toda a minha carreira.

Volto a ouvir os torcedores de dentro do meu vestiário, muitos deles ao vivo e outro tantos a frente de uma tv.

Relembro todas as lições de vídeos. Revejo cada lance antes mesmo dele acontecer e a reação de cada um dentro do campo. Passo os olhos em cada um de meus companheiros e fico imaginando o que estão pensando naquele momento.

Um no seu momento de fé, outro com a lembrança de sua família que ao longo do tempo ficou esquecida em muitas oportunidades importantes, como um aniversário, um batizado ou mesmo um jantar.

Ouço nos chamarem. Chegou a hora. Tudo agora ficou para trás. Nos damos as mãos e desejamos sorte a cada um com uma intensidade que chego a levar um choque.

Subimos cada degrau daquela escada com um desejo ardente de que tudo dê certo e possamos fazer uma grande partida de futebol.

Todos em campo, os detalhes conferidos e a última coisa que ouço no sistema de som do estádio são os nossos nomes, toda equipe de arbitragem. Trilo o apito. Começa o jogo.

*Marco Antonio Tavares é Professor de Educação Física e Vice-Presidente da Federação de Futebol de Mato Grosso do Sul.

 

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