Pobreza, violência e segregação marcam vidas de milhões de negros no Brasil

RN7

Um cemitério de escravos enterrados sob um punhado de pedras sem registros de nomes ou datas de nascimento e morte, na Mata Atlântica, lembra os primeiros vestígios de um racismo ignorado que ainda mata e segrega no Brasil.

A população negra, majoritária (56% dos 210 milhões de habitantes), é a mais atingida pelo desemprego, a que mais morre nas operações policiais e a menos representada nas esferas de poder.

O maior país da América Latina foi formado por sucessivas ondas de migrantes europeus e asiáticos, escravos oriundos da África e os povos indígenas, mas a integração muitas vezes falhou no último país das Américas a abolir a escravatura (1888).

RACISMO QUE MATA E TORTURA.

Fabio Pereira Campos lembra-se do dia em que quatro jovens negros – como ele – foram mortos pela polícia na rua atrás de sua casa, no bairro de Americanópolis, na zona sul de São Paulo.

Ele também não esquece quando dois supostos traficantes atiraram em um de seus amigos – também negro – que se preparava para comemorar seu 18º aniversário. “Eles nos pediram para levantar nossas camisas, nós dissemos que não tínhamos nada, e então eles simplesmente descarregaram as quatro armas que tinham no rosto do garoto”, contou.

Hoje, aos 41 anos, Fabio é um dos poucos de seu grupo de amigos que não está morto ou na cadeia.

Na periferia de São Paulo (onde a maioria da população é negra), ao contrário de bairros de classe alta como Pinheiros (com ampla maioria de brancos), há poucas oportunidades para fugir da espiral de violência, drogas e pobreza.

A polícia age nestas regiões com extrema dureza. No início de dezembro, em Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, uma operação da PM terminou em tragédia.

Na madrugada de domingo (1º), cerca de 5 mil jovens estavam em um baile funk quando agentes entraram no local, jogaram bombas de gás lacrimogêneo e fizeram disparos com balas de borracha. Eles alegaram que estavam à procura de dois suspeitos que teriam atirado na direção dos policiais durante a operação que acontecia na comunidade e depois se escondido na multidão.

A ação causou um grande tumulto que teve saldo de nove jovens mortos pisoteados, quatro deles menores de idade. A maioria das vítimas era negra.

De acordo com o Atlas da Violência de 2019, um relatório baseado em dados oficiais, 75,5% das vítimas de homicídios registrados em 2017 (65.602) eram negras. A taxa de homicídios por 100 mil negros foi de 43,1, quase o triplo da registrada entre a população branca (16).

Os negros são também a maioria nas prisões brasileiras, representando 61,6% da vasta população carcerária do país, de cerca de 812 mil pessoas, a terceira maior do mundo.

Fabio, agora estudante universitário de Serviço Social e membro da Associação de Amigos e Familiares de Presos (Amparar), é um dos muitos que afirmam que há um “genocídio” contra eles.

Ele também foi vítima dessa marginalização, na qual a cor da pele, a pobreza, o tráfico de drogas, a corrupção e a educação extremamente precária se misturam. Começou a usar drogas quando tinha apenas 14 anos e não parou até os 31.

“A rua é mais atraente para uma criança dos subúrbios que não tem outras perspectivas”, afirmou.

Em 2004, vinte gramas de crack lhe renderam uma pena de quatro anos de prisão, sendo três em regime fechado e um em liberdade condicional.

Quando saiu da cadeia, voltou para Americanópolis e para o mundo das drogas.

Após quase morrer de overdose e viver sob a ameaça de policiais que lhe extorquiam dinheiro para não prendê-lo novamente, Fabio, o mais novo de seis irmãos, é a exceção da regra. Rreconstruiu a vida e entrou para a universidade.

O racismo voltou a sacudir a região de Americanópolis em julho deste ano, quando um adolescente negro de 17 anos foi torturado por cerca de 40 minutos por dois agentes de segurança particular dentro de um supermercado da rede Ricoy, depois de roubar um chocolate. As imagens, gravadas por um dos agentes e divulgadas em redes sociais, chocaram o país. As imagens mostram o jovem nu, amordaçado e espancado com cabos elétricos.

A MARCA DA ESCRAVIDÃO.

Estima-se que o Brasil tenha recebido quase 5 milhões de escravos africanos dos 12,5 milhões que embarcaram rumo ao continente americano ao longo de três séculos. Aqueles que chegaram vivos foram leiloados ou enviados diretamente aos novos “donos”.

Alguns que conseguiram fugir fundaram quilombos. O de Ivaporunduva, que remonta ao século XVI, é o mais antigo da região do Vale do Ribeira (SP). Nele vivem cerca de 110 famílias em meio a uma profusão de verde e vários rios que dificultam o acesso.

Os moradores vivem da pesca e do cultivo de arroz, feijão, milho, cana-de-açúcar e banana, o principal motor econômico da região. Para os ciclos de colheita eles se guiam pelas fases da Lua, uma de suas muitas tradições centenárias. A Igreja, o centro desta comunidade, foi construída no século XVII pelos próprios escravos, que foram obrigados a se converter à fé católica.

Quando os atuais descendentes precisam recarregar as energias, percorrem a “rota do ouro”, uma estrada cheia de rios, pontes feitas de troncos e enormes palmeiras, até o cemitério dos antepassados, onde montes de pedra servem de lápides.

No meio da Mata Atlântica, dezenas de escravos foram enterrados, alguns deles pouco depois de morrerem de exaustão enquanto procuravam ouro.

“Meu sangue também está derramado lá”, disse Vandir Rodrigues, 69 anos.

“Se uma pessoa morria, a colocavam lá embaixo e a enchiam de pedras. Por quê? Porque se havia pedras em cima, era sinal de que não podia mais se virar”, contou.

Estima-se que cerca de 400 arrobas de ouro – o equivalente a cerca de seis toneladas – tenham sido retiradas desta área rumo a Lisboa, capital do então império colonial.

Durante décadas, os quilombos ficaram isolados do progresso. Essa segregação forçada fez com que até algumas décadas atrás eles tivessem que fazer fogo por meio de fricção de pedras.

“As pessoas da região do Vale do Ribeira dizem que o quilombo dificulta o desenvolvimento da região. Para as empresas somos um problema, porque elas querem explorar essas terras”, explicou Benedito Alves, 64 anos, um dos líderes comunitários.

A Constituição de 1988 reconheceu o direito de propriedade de suas terras (artigo 68) e obrigou o Estado a emitir tais títulos, mas o atraso no reconhecimento oficial é contado em anos.

Em 2017, quando era deputado federal, o hoje presidente Jair Bolsonaro disse ter visitado um quilombo e criticou os habitantes por não fazerem “nada” e por não servirem “nem para procriar”.

Bolsonaro acabou condenado em primeira instância a uma multa. Insatisfeito, apelou ao Supremo Tribunal Federal (STF), que rejeitou a denúncia de racismo.

Antes das eleições do ano passado, que o levaram ao poder, ele culpou os “próprios negros” pelo tráfico de pessoas durante a era colonial e alegou que os portugueses “nem pisaram na África”.

RACISMO NO TRABALHO.

Adriana Aparecida morou com sua mãe no quarto de empregada do apartamento de uma família de classe alta do bairro nobre de Moema, em São Paulo.

Não tinha permissão para entrar pela porta da frente do edifício, nem para usar o elevador social ou a piscina. “Me afetou muito”, reconheceu.

As crianças com quem ela brincava, os filhos dos patrões, todos brancos, a ofendiam constantemente. “A primeira ofensa foi me chamarem de macaco, ou diziam para sair de perto, isso era normal”, afirmou.

A mãe dela, Benita, trabalhou a vida inteira como empregada para pessoas brancas. Aos 71 anos, ela se lembra com amargura de seu período em uma fazenda em Bauru quando era adolescente.

“Eu era uma escrava. Acordava de madrugada, ainda estava escuro para trabalhar, lavar aquele jardim enorme, cuidar dos cachorros, buscar o pão… Eu era muito nova, fazia coisas, mas eles me maltratavam muito, e foi uma época em que eu tentei me matar”, revelou.

Adriana, por sua vez, está desempregada desde setembro.

“Quando fazemos entrevistas de trabalho, se há dez pessoas brancas e eu sou a única pessoa negra ou há outros negros, quando sabemos o resultado, vemos que entre os selecionados não há nenhum dos negros que estavam lá”, afirmou.

Segundo dados oficiais do ano passado, duas em cada três pessoas desempregadas no Brasil eram negras (64,2%). A taxa de analfabetismo é de 3,9% entre os brancos e de 9,1% entre a população negra. Adriana teve que deixar a escola por falta de recursos.

A diferença nos vencimentos também é grande. Em 2018, o salário médio mensal dos funcionários brancos foi de quase R$ 2.800, 73,9% a mais que o dos negros R$ 1.608.

A Lei Áurea de 1888 aboliu no papel a escravatura, que foi mantida socialmente, especialmente nas relações laborais.

“O projeto antinegro continua funcionando. O antinegro é uma política, uma bandeira, um projeto”, disse Regina Marques, pesquisadora sobre os efeitos psíquicos do racismo e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

RACISMO NA POLÍTICA.

“Ele me disse que não iria brincar comigo, porque os pais dele tinham falado que as pessoas da minha cor roubavam brinquedos”, contou Fernando Holiday, vereador mais jovem da história da cidade de São Paulo, lembrando um comentário de um de seus colegas brancos da época de creche.

Hoje aos 23 anos, ele ainda ouve esse tipo de insulto na política.

Desta vez o autor da ofensa não foi uma criança, mas o vereador Camilo Cristófaro (PSB), que o chamou de “macaco de auditório”.

Holiday é uma avis rara. Sua ideologia de direita e contrária às cotas raciais nas universidades lhe gerou problemas entre militantes de esquerda e do movimento negro, que o consideram um “traidor da causa”.

Ele argumenta que as cotas raciais – que permitiram que, em 2018, os negros se tornassem a maioria nas instituições de ensino superior pela primeira vez (50,3%) – ajudam a “reforçar os preconceitos e estereótipos em relação aos negros”.

É por isso que ele defende um critério baseado em fatores socioeconômicos, e não na cor da pele. “Naturalmente os maiores beneficiários seriam os negros, porque eles são a maioria dessa população”, comentou.

A presença de negros na política está longe de ser uma maioria no Brasil. Eles representam apenas 24,4% dos deputados federais, 28,9% dos deputados estaduais e 42,1% dos vereadores.

O cenário é semelhante nos poderes Judiciário – 83,8% dos juízes são brancos, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça – e Executivo. Dos 22 ministros que compõem o governo Bolsonaro, nenhum é negro.

A RESISTÊNCIA.

Diante da discriminação, surge a resistência, como a proposta do “Black Money”, um movimento que nasceu nos Estados Unidos e que aos poucos vai ganhando apoio no Brasil. O objetivo é ligar empresários, trabalhadores e consumidores negros e tentar fazer circular o dinheiro entre eles o máximo possível. Mas também visa promover projetos educativos e, em última análise, criar uma rede de “afroempresários”.

Nascida em uma favela do Rio de Janeiro há 37 anos, Nina Silva é a fundadora da versão brasileira do ‘Black Money’. Ela também era chamada de “macaco” quando estava na escola. Estudou Administração na Universidade Federal Fluminense (UFF) e tornou-se consultora tecnológica, um setor onde, segundo ela, “as mulheres eram poucas, e os negros, zero”.

Após uma temporada nos Estados Unidos, em 2017 ela conheceu seu sócio, Alan Soares, da área financeira, e juntos fundaram o ‘Black Money’ no Brasil pensando nessa “falta de espaços negros de poder”.

Nina foi escolhida pela prestigiada revista “Forbes” como uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil e é taxativa contra aqueles que a acusam de promover a segregação:

“Para esses, digo que vão a seu restaurante favorito e vejam onde está a segregação, vejam quem está lhes servindo e quem está sendo servido. Que olhem para a rua e vejam quem está nos bancos das praças, quem está na prisão, quem está desempregado, quem está morrendo…”.

EFE

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